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Uma nova fenda na geleira de Pine Island, na Antártida Ocidental, fotografada durante estudos da NASA em 4 de novembro de 2016. Via NASA/Nathan Kurtz. |
No ano passado, um pedaço de mais de 580 km² do glaciar de
Pine Island, na Antártida Ocidental, se soltou e caiu no mar. Agora cientistas
da Terra da Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, detectaram a causa desse
evento: uma rachadura que começou muito abaixo do solo e em terra.
É diferente de qualquer outra coisa que cientistas já tenham
visto na Antártida Ocidental antes, e não parece ser um bom presságio para o
futuro da camada de gelo.
Uma fortaleza congelada contendo água o suficiente para
elevar o nível global do mar em muitos metros se derreter, a camada de gelo da
Antártida Ocidental é separada do oceano por uma série de grandes glaciares. Por
enquanto, esses glaciares agem como rolhas em garrafas de vinho para manter o
gelo na baía, mas esse pode não ser o caso dentro de algum tempo.
Pesquisas recentes mostram que Pine Island, Thwaites e
outras geleiras ao redor do mar de Amundsen estão retrocedendo rapidamente, à medida
em que as águas quentes do oceano chegam às suas margens. Neste ponto, diz a
NASA, o colapso de todo o setor do mar de Amundsen parece ser “imparável”.
A maior questão é saber quão rapidamente esse gelo vai
derreter, e, para descobrir isso, precisamos detectar os mecanismos responsáveis
pelo colapso da camada de gelo. Para isso, um estudo publicado na Geophysical
Research Letters volta ao verão de 2015, e chegou a partir daí em uma conclusão
perturbadora.
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Vista do topo do mar de Amundsen, onde grandes geleiras da camada de gelo da Antártida Ocidental se soltam e vão para o oceano. Via NASA/GSFC/SVS |
“O evento em si não foi grande coisa,” disse o pesquisador Ian
Howat ao Gizmodo, notando que quebra de icebergs desse tamanho ocorre a cada 5
ou 6 anos em Pine Island. “O que fez isso ser diferente foi a forma como
começou.”Em Pine Island e em qualquer outro lugar da beira-mar de Amundsen, a
separação ocorre na parte externa da geleira, onde a camada de gelo é separada
da rocha. “É meio que como um trampolim saindo de uma piscina”, disse
Howat. Normalmente, rachaduras começam a se formar nas áreas que experienciam
cisalhamento extremo do gelo que flui do continente. Elas vão se propagar pela
geleira, causando eventualmente a quebra total desse trampolim.Não foi assim
com o evento de Pine Island no ano passado. Ao analisar imagens de diversos
anos tiradas pelo satélite Sentinel-1A, Howat e seus colegas ligaram a
separação a uma fenda que se formou na base da geleira a cerca de 30 km de
costa em 2013. Ao longo de dois anos, a fenda se propagou da parte de baixo até
o topo, até que finalmente gerou um iceberg com dez vezes o tamanho de
Manhattan.O que poderia ter feito tanto gelo se quebrar de uma forma tão
incomum? Aparentemente, o derretimento começou no ponto de contato entre o gelo
e a base rochosa. Isso explicaria porque a fenda se sobrepôs como um vale
topográfico – um lugar em que o gelo parecia ter diminuído – nas imagens de
satélites tiradas no passado.
“Eu acho que estamos vendo a expressão de superfície de um vale
muito maior na base da camada de gelo,” explicou Howat. “Isso nos diz que a
camada de gelo tem fraquezas que estão sendo exploradas pelo aumento nas
temperaturas do oceano.”O problema é que, conforme as águas da Antártida
Ocidental esquentarem, essas fraquezas vão ser mais e mais vezes exploradas.
“Se a camada de gelo estava regredindo lentamente em escalas longas de tempo,
nós esperaríamos ver apenas as separações normais,” disse Howat. “Esse evento
nos dá um novo mecanismo para camadas de gelo que se separam rapidamente. Ele
se encaixa naquela imagem de uma regressão rápida.”Howat destacou que uma
segunda fenda interior na camada de gelo (na imagem acima) foi detectada
durante um estudo da NASA no começo do mês. E existem muitos outros vales
topográficos – locais que podem sofrer com eventos parecidos no futuro -, mas
nossa habilidade de estudá-los é prejudicada pela falta de bons dados.É difícil
ouvir isso e lembrar que o programa de ciências da Terra da NASA, que
disponibiliza muitos dos dados para cientistas e para o publico – pode sofrer cortes grandesdurante a administração Trump. Esses
cortes viriam em um momento em que nosso planeta está mudando de forma rápida e
difícil de prever, que é quando essa ciência é mais necessária.
Foto de topo: uma nova fenda na geleira de Pine
Island, na Antártida Ocidental, fotografada durante estudos da NASA em 4 de
novembro de 2016. Via NASA/Nathan Kurtz.
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