A CIVILIZAÇÃO DO MEDO


Para o Ocidente, o ano 2000 seria o coroamento do projeto civilizador, e a civilização do futuro seria ocidental. Poderíamos discordar se ela seria capitalista ou socialista, marxista ou keynesiana, mas não havia dúvida de que o avanço técnico construiria um mundo de fartura para todos. E isso bastaria. Apesar do terror da primeira guerra mundial e suas armas químicas, fabricadas e utilizadas por ocidentais; do horror do fascismo e do stalinismo, produtos do Ocidente; da insuperável brutalidade da bomba atômica, criada e usada pelo Ocidente. Apesar dos repetidos atos de terrorismo sem causa, como o de Oklahoma, cometido por um ocidental, e do macabro ritual dos assassinos em série, quase sempre ocidentais; ao longo do século do Ocidente a civilização caminhou para melhor.
A social-democracia construiu na Europa uma sociedade no limite do igualitarismo que coabita com a liberdade individual. O socialismo criou uma sociedade que garantiu acesso social a bens e serviços antes restritos a poucos. Nos continentes periféricos, os povos caminharam para o fim do colonialismo. O avanço técnico aumentou a esperança de vida, o nível de conforto e bem estar; a ciência e a tecnologia permitiram controlar a saúde, o transporte. Graças à vitória do lado capitalista da civilização ocidental sobre o seu lado socialista, foi possível chegar ao século XXI sem o medo de uma hecatombe nuclear. E foi derrubado o muro que separava países europeus segundo suas ideologias e regimes políticos e sociais No fim do século XX, a humanidade estava mais rica, mais livre, mais integrada pela globalização nos moldes do Ocidente. Mas, apesar de todo o avanço sob a égide do Ocidente, o século XXI se inicia como o Século do Terror, em uma Civilização do Medo. Quando pensava inaugurar uma civilização global, construindo uma Europa do tamanho do Planeta, o mundo se surpreende com o início de uma civilização aterrorizada, com medos. No lugar da confiança no futuro, a civilização ingressa no século XXI com pelo menos 15 medos:
Do terror. Em primeiro lugar, o medo visível do terrorismo que ameaça a vida de cada inocente cidadão em nossas cidades, como se viu no absurdo crime cometido pelos terroristas dos Onze de Setembro e de Março.
Da ecologia. A cada dia, os estudos, as notícias e a própria observação pessoal mostram um mundo caminhando para a destruição do planeta, por causa da crise ecológica.
Da droga. Em toda parte, o uso de droga deixou de ser um problema pessoal e passou a ser um dos medos da humanidade, prisioneira dos traficantes e da degradação da juventude
Do desemprego. O sonho de um século XXI onde todos teriam a liberdade de uma jornada reduzida de trabalho foi transformado pelo pavor generalizado do desemprego, especialmente entre os jovens.
Da migração. O final do século XX e o começo do século XXI são tempos de assustadora migração entre países e continentes, com um desconforto trágico para os que migram e uma ameaça constante para as sociedades invadidas.
Da paz. Como uma guerra fria transformada em paz quente, pequenas guerras se espalham pelo mundo, sem o controle antes existente do equilíbrio das grandes potências
Da violência. A humanidade sempre foi violenta, mas havia um sonho de paz e a sensação de que se caminhava para ela. A realidade parece mostrar o contrário. Nunca se viu tanta violência urbana como nas últimas décadas. Em alguns países, ela já se transformou em verdadeira guerra civil, permanente e sem propósito. Cidades grandes se transformaram em campos de guerra.
Da tecnologia. A tecnologia, antes instrumento de construção da utopia, tornou-se um assustador instrumento de criação de desemprego, de manipulação genética, de fabricação de armas, redução da liberdade, destruição da natureza
Da liberdade. O imenso poder de destruição que a tecnologia oferece a cada indivíduo provoca um medo da liberdade individual e a necessidade de controlar cada pessoa.
Da democracia. No mundo de hoje, o poder de cada chefe de estado eleito vai muito além das fronteiras de seu país e da geração de seus eleitores. Mas na democracia a história continua prisioneira de cada país e limitada à próxima eleição. A democracia sem controle ético assusta a humanidade.
Do controle. Ao mesmo tempo, a necessidade de controlar a liberdade individual, de abrir fronteiras e de sacrificar o presente em nome do futuro provoca o medo do próprio controle.
Da desigualdade. No lugar da igualdade para onde se imaginava caminhar a humanidade – aquela planejada pelo estado socialista ou a promovida pelo mercado capitalista – o século XXI apresenta a maior brecha social de desigualdade já ocorrida em toda a história da humanidade. Desigualdade que assusta pelo caos que pode criar e pela destruição de valores éticos que pode trazer.
De doenças. Ao mesmo tempo em que parece caminhar para a cura das doenças, a humanidade mostra-se assustada com as novas doenças criadas pela própria civilização moderna, ou com as velhas doenças que se espalham graças à globalização.
Das curas. Como se não bastasse o medo das doenças modernas, o mundo se assusta com o êxito das curas, que vêm prolongando a vida humana a ponto de ameaçar as finanças dos sistemas de saúde e seguridade social; ainda mais se o efeito desse prolongamento se espalha por toda a população da terra.
Do vazio. Existe hoje um vazio espiritual e existencial. E isso assusta um mundo que se pergunta até onde irá o vazio do consumismo, da alienação.

Extraido do texto de mesmo nome de Cristovam Buarque

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