12 de Novembro Rosetta entrará para a História


MÓDULO PHILAE
12 de Novembro de 2014, essa é a data em que os livros de história, se tudo ocorrer como está previsto, marcarão como o dia em que a humanidade pisou pela primeira vez na superfície de um cometa. Serão horas de incerteza, agravadas pelo inevitável atraso nas comunicações devido a distancia do cometa 67p com a Terra, 7 longas horas em que so poderemos sentar e esperar como é habitual na exploração interplanetária, enquanto a sonda espacial deverá agir de forma autônoma, tomando ela mesma as decisões a cada momento.

Tudo se iniciará às 8.35 GMT, com a liberação do módulo Philae por parte da Sonda Rosetta quando esta se encontrar a 20 Km de altura sobre o cometa. Durante a descida, que durará umas 7 horas, sua câmara ROLIS tomará uma série continua de fotos. O cometa completará mais da metade de uma rotação durante esse período de tempo, pois a zona de aterrissagem escolhida se encontra inicialmente no lado oposto e irá se aproximando a medida que passam as horas. Um disparo às cegas, em que tudo dependerá da extidão dos cálculos realizados.

Rosetta liberará Philae com uma velocidade inicial de aproximadamente 2,5  Km/h. Pelo fato de que o cometa é muito pequeno, sua gravidade pouco intervirá na velocidade do módulo que descerá à superfície em uma trajetória balística e sem meios de ajustar sua trajetória. Contando com um sistema de propulsão da aterrissagem, porém, diferentemente dos sistemas tradicionais que retardam o veiculo para que a aterrissagem seja suave, o de Philae está desenhado para que se fixe em uma superfície, sem garantia alguma de que seja completamente plana ou horizontal, e onde suas 3 patas, capazes de adaptar-se a um terreno irregular e inclinado até 30 graus seguramente terão um papel importante.

No momento do contato com o solo uns pequenos arpões, unidos a Philae por cabos, a ajudarão a adquirir uma posição vertical e se manter firme à superfície.. Se  o sistema de foguetes e arpões não funcionar corretamente o modulo poderá tombar e perder-se no espaço ou ficar em uma posição impossível de operar sua missão.

Na viajem de Philae e nas operações de aterrissagem a equipe de técnicos da Terra não terá controle algum no momento da descida, mas fará dias antes o envio à Rosetta de todos os comandos necessários para a realização da missão. Aí que os técnicos da ESA deverão demonstrar sua capacidade, para que a Sonda se encontre no lugar exato no momento da separação já que qualquer desvio levaria o módulo para fora da área de aterrissagem escolhida como a mais segura.

Será uma missão extremamente complexa, onde a fraca gravidade do cometa, longe de ser uma vantagem, representa ao contrário o maior problema, justamente por ser muito fácil liberar-se dela com qualquer mínimo impulso e projetar-se no espaço para sempre. A precisão dos cálculos dos técnicos do ESA, assim como o complexo funcionamento do sistema de aterrissagem farão a diferença. Em 12 de novembro teremos um encontro com a história.
COMETA 67 P
 
SONDA ROSETTA

 
 

MOSTRANDO VERDADES AOS LIDERES DA CUPULA DO CLIMA NA ONU.


 
"Quando o poder conduz o homem à arrogância, a poesia lembra de suas limitações", proclamou John F. Kennedy. "Quando o poder estreita as áreas de interesse do homem, a poesia lembra-o da riqueza e da diversidade de sua existência. Quando o poder corrompe, a poesia limpa."

Kathy Jetnil-Kijiner, uma poetisa de 26 anos de idade, de Ilhas Marshall, demonstrou recentemente o impacto que um poema pode ter. Ela falou durante o segmento de abertura da Cúpula do Clima das Nações Unidas para 2014 esta semana. Em um artigo intitulado "Querida Matafele Peinem", (sua filha) ela conseguiu capturar a dura realidade da mudança climática: "Para enfrentar (alterações climáticas), precisamos de uma mudança radical de curso," Jetnil-Kijiner explica. "Isto não é fácil, eu sei. Significa acabar com a poluição de carbono dentro de minha vida. Significa apoiar aqueles de nós mais afetados para se preparar para os impactos climáticos inevitáveis​​. E isso significa assumir a responsabilidade pela perda irreversível e os danos causados ​​pelas emissões de gases de efeito estufa ".

"Peço a todos os líderes mundiais para nos levar junto em sua viagem", acrescentou. Nós vamos ajudá-lo a vencer a corrida mais importante de todas. A corrida para salvar a humanidade."

Jetnil-Kijiner é uma falada artista e co-fundadora de uma ONG ambiental nas Ilhas Marshall chamados Jo-JiKuM. A organização se concentra em capacitar os jovens, educando-os sobre a importância do ambientalismo e mobilizando-os para trabalhar em busca de soluções para as questões de mudanças climáticas. Ela foi uma das 38 representantes da sociedade civil escolhidos para apresentar na Cúpula.

Uma parte do poema de Jetnil-Kijiner:

mãos para fora, levantando os punhos, banners desfraldando, megafones crescendo
e nós somos canoas bloqueando navios de carvão
nós somos o brilho de aldeias solares
nós somos o rico solo limpo do passado do agricultor
nós somos petições florescendo da ponta dos dedos adolescentes
nós somos famílias, reciclagem, reutilização, engenheiros, sonho, concepção, construção, artistas pintura, dança, escrita
estamos espalhando a palavra
e há milhares nas ruas, marchando, com sinais de mãos dadas
cantando pela mudança agora


Leonardo DiCaprio faz apelo a líderes globais na Cúpula do Clima

“Como ator, meu trabalho é fingir. Interpreto personagens fictícios, que muitas vezes precisam resolver problemas fictícios”, comentou DiCaprio. “Eu acredito que a humanidade tem olhado para as mudanças climáticas da mesma forma – como se fosse uma ficção, como se fingindo que a mudança climática não é real faria, de alguma forma, o problema ir embora. Mas acredito que muita gente pensa diferente agora”, afirmou.

Secas intensas, acidificação dos oceanos, aumento do número de eventos extremos do clima, derretimento de geleiras... “Nada disso é retórica. Nada disso é histeria. É fato”, concluiu.

Segundo DiCaprio, é urgente tomar medidas agora. “Não se trata apenas de pedir às pessoas que troquem lâmpadas ou comprem carros híbridos. Esse desastre já cresceu além das escolhas que os indivíduos fazem. Agora, dependemos de indústrias e governos ao redor do mundo tomarem ações decisivas e em grande escala. Este deve ser nosso momento de agir”, falou.

E QUANDO A ULTIMA GOTA CAIR? 6 PERGUNTAS SOBRE A CRISE DA ÁGUA EM SP.


 
 
Assim como futebol e política, "água" virou assunto corrente nas conversas de quem vive em São Paulo. No supermercado, na fila do ônibus, na hora do almoço, as perguntas estão sempre lá: Vai ter racionamento? A água do volume morto é boa? Como São Paulo mergulhou nessa crise? E se não chover, vai faltar? Veja a seguir algumas respostas para as dúvidas mais comuns sobre a crise.

 1 - COMO SÃO PAULO MERGULHOU NESTA CRISE?

São Pedro tem participação, mas pequena. O último período chuvoso, que vai de outubro à março, foi o mais seco em 45 anos, segundo dados do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (IAG-USP). Não à toa, o verão de 2014 fez São Paulo bater vários recordes de calor.
Mas, veja bem, a responsabilidade do santo guardião da chuva termina aí. Uma parcela bem maior cabe ao poder público, o zelado oficial da água, incumbido de gerenciar esse recurso natural com parcimônia.
Faz pelo menos quatro anos que o Estado de São Paulo está a par dos riscos de desabastecimento de água na Região Metropolitana. Em dezembro de 2009, o relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, feito pela Fundação de Apoio à USP, não só alertou para a vulnerabilidade do sistema Cantareira como sugeriu medidas cabíveis a serem tomadas pela Sabesp a fim de garantir uma melhor gestão da água.
Antes disso, na outorga de 2004, uma das condicionantes era que a Sabesp tivesse um plano de diminuição de dependência do Cantareira. O grande problema foi a demora de planejamento.
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instarou um inquérito civil para esclarecer a crise no Sistema Cantareira e apurar informações sobre a possibilidade de erros de gestão da Sabesp.

2 - QUAL O IMPACTO DO USO DO VOLUME MORTO NA QUALIDADE DA ÁGUA E NA SAÚDE PÚBLICA?

Este é um dos temas mais delicados. Afinal, nunca São Paulo tinha bebido do chamado volume morto, uma reserva abaixo do nível de captação de água feita pela Sabesp. Por se tratar de uma área mais funda, essa reserva "técnica ou estratégica", como diz o governo, serve de zona de sedimentação dos micropoluentes no ambiente aquático e, também, de alguns metais pesados. Quando remexida, pode impactar não só a qualidade da água, mas a vida dos seres daquele ecossistema.
Estima-se que os gastos da Sabesp tenham aumentado em 40% com tratamento dessa água, comparada à água do volume útil. Procurada pela reportagem, a Sabesp não confirmou a informação.
Em nota, a Cestesb afirmou que realiza, periodicamente, análises da qualidade da água do Reservatório Jacareí, com o objetivo de avaliar os aspectos ambientais do denominado "volume morto".
"Essa caracterização é realizada por meio de parâmetros físicos, químicos e biológicos. Com base nessa análise, verifica-se que a água do reservatório continua apresentando boas condições de qualidade, tanto para proteção da vida aquática quanto captação visando o abastecimento público", diz o órgão.

3 - O QUE O GOVERNO ESTADUAL E A SABESP TÊM FEITO PARA TENTAR CONTORNAR A CRISE HÍDRICA?

De saída, a Sabesp ofereceu desconto de até 30% na conta para quem economizasse água. Com a adesão popular e controle dos desperdícios, a ação tem sido bem sucedida.
Outra medida, essa menos popular por vários motivos, foi a tentativa de provocar chuva artificial, um processo chamado de semeadura de nuvens, ao custo de R$ 4,5 milhões.
A investida mais radical, no entanto, foi recorrer a obras para retirada do volume morto, considerada por alguns especialistas uma ação deletéria.
Eles definem o quadro como uma ilusão da abundância em plena escassez, com consequências nefastas para o meio ambiente, a economia e para o próprio bem-estar da população.
Para os experts em recursos hídricos, a reserva do volume morto deveria ser usada a apenas em situação extrema, somente após iniciado um rodízio e caso as chuvas de outubro não chegassem em quantidade suficiente.
Outra alternativa, que depende menos do estado e mais da disposição dos vizinhos, é a proposta de construir um canal para retirar água da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece o Rio de Janeiro.

4 - O SISTEMA CANTAREIRA CONSEGUIRÁ SE RECUPERAR? QUANDO?

Deixar o manancial se esgotar, como está ocorrendo, gera graves efeitos ambientais. O esgotamento de uma represa afeta os lençóis freáticos do entorno e todo o ecossistema.
"Esses mananciais precisam ser preservados e não explorados à exaustão. É uma questão de preservação da qualidade da água", diz Roberta Baptista Rodrigues, doutora em recursos hídricos e professora dos cursos de Engenharia Ambiental e Sanitária e de Engenharia Civil da Universidade Anhembi Morumbi.
Recuperar esses sistemas vai ser muito mais complicado, mesmo com chuvas. À medida que o nível da água reduz, aumenta a taxa de evaporação, porque o solo fica mais seco e em contato com a atmosfera. Assim, a água da chuva infiltra e evapora", acrescenta.
Segundo análise estatística do comitê que monitora a crise, o sistema tem só 25% de chance de acumular entre dezembro e abril de 2015 uma quantidade de água (546 bilhões de litros) suficiente para repor o "volume morto" usado emergencialmente e ainda devolver ao Cantareira 37% da sua capacidade antes do próximo período de estiagem.

5 - VAI TER RACIONAMENTO?

Para especialistas em recursos hídricos, SP já deveria estar racionando água, tanto para poupar este recurso quanto para preservar os mananciais. Sujeitar 9 milhões de pessoas a regime de racionamento não é uma decisão fácil. Mas é necessária, segundo Marco Antonio Palermo, doutor em engenharia de recursos hídricos pela USP.
"O uso do volume morto é uma estratégia paliativa e muito deletéria, que não trata o problema de forma estrutural. Pior, está virando rotina. Isso não pode ser prática de uma política de gestão de recursos hídricos, que deve focar na produção de água e no uso do volume útil", defende.
Segundo ele, se São Paulo tivesse iniciado o rodízio no começo do ano, não teria sido necessário recorrer à reserva técnica, que só seria usada como estratégia última. Com isso, cresce o risco de SP enfrentar um racionamento drástico com o aprofundamento da crise.

6 - E SE AS CHUVAS NÃO VOLTAREM EM OUTUBRO E NOVEMBRO PARA ACUDIR OS RESERVATÓRIOS? SP CORRE O RISCO DE FICAR SEM ÁGUA?

"Somente se não chover até outubro é que teremos problemas", disse, em maio, o diretor de relações com investidores da Sabesp, Mario Sampaio. No pior cenário, a água se esgota até outubro, pelo cálculos do grupo de monitoramento da crise, formado pela Agência Nacional de Águas (ANA) e o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado (DAEE).
Os cálculos contrariam a afirmação do governo de que até março de 2015  a água está garantida. Recentemente, a Sabesp anunciou que pode recorrer ao volume morto do Alto Tietê, o segundo maior sistema de água da Região Metropolitana.
Estimativas apontam que a medida daria apenas um mês de sobrevida ao sistema. Qual será o plano C, quando a última gota chegar? Procurada pela redação, a Sabesp não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Agora que a crise já está instalada, começam a sair do papel projetos antigos que podem proteger a cidade de futuros colapsos. É o caso da construção de um novo reservatório de água, em Ibiúna, fruto de parceria público-privada, prevista para ser concluída em 2018.

Texto de Vanessa Barbosa publicada na Revista Exame em  28/7/2014

ÁGUA: o que há em comum entre Sikri, Ilha de Pascoa e São Paulo

O que resta do volume vivo - Represa da Cantareira - SP

Crises não são novidade. Depois que ocorrem, após algum tempo para análise, surgem várias explicações sobre suas causas e sobre o que poderia ter sido feito para evitá-las. Em muitos casos, os estudos de crises passadas criam conhecimento que poderia prevenir futuras. Porém, em certos casos, evitar crises nos demandaria esforços maiores do que gostaríamos de empreender e portanto nos entregamos à tendência coletiva de achar que desta vez será diferente. Mas será? Antes de falar da estiagem que aflige São Paulo, vejamos alguns episódios passados sobre crises hídricas, que nos transmitem valiosas lições. No século XVI o poderoso Akbar, rei dos Moghols, ergue uma monumental cidadela em Sikri, a 30 quilômetros de Agra, na Índia, e a denominou a “Cidade da Vitória”. Isto porque pouco antes um profeta sufi previra a Akbar o nascimento de três filhos nesse lugar, o que realmente aconteceu nos anos seguintes. Algo, no entanto, o profeta não previu, ou não revelou. Quinze anos após transferir para lá o seu séquito de cinco mil mulheres – das quais trezentas esposas -, mil soldados e seus cavalos, Akbar teve que abandonar aqueles “jardins do paraíso”, deixando a fortaleza aos poucos herdeiros do profeta, por um único motivo: escassez de água. Na mesma época, as tribos da Ilha de Páscoa estavam em seu auge, com uma população de 30 mil habitantes e uma dedicação incondicional a talhar e erguer centenas de gigantescas estátuas de pedra, os moais. Presume-se que essas rochas eram transportadas pela ilha com o uso de troncos de árvores. A competição em torno dos moais acabou por extinguir as florestas gerando, dentre outros problemas, uma severa escassez de água doce. Esse fato, aliado à erosão causada por práticas inapropriadas de agricultura, levou a população à guerra civil e ao canibalismo. Em menos de duzentos anos a população foi reduzida a apenas cem sobreviventes, vivendo em estado de miséria. Um ano antes do nascimento de Akbar, era fundada no Brasil a Vila de São Paulo da Piratininga. Em região aquinhoada com vastos recursos hídricos, a cidade de São Paulo sobreviveu a Sikri por quinhentos anos. Em 1872 houve o primeiro censo demográfico no Brasil, revelando que dos seus 10 milhões de habitantes, 31 mil viviam na cidade de São Paulo, em franca expansão até ultrapassar a marca de 11 milhões de habitantes em 2011. Em 2014, a cidade enfrenta a pior crise hídrica de sua história. Essa crise não se limita à cidade de São Paulo, atinge uma ampla região. Dezenove municípios paulistas efetuam racionamento de água, dos quais doze ficam na região de Campinas. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que 3 mil postos de trabalho já tenham sido fechados em decorrência da falta d’água. Agricultores já irrigam em alguns casos somente 30% do que antes da crise hídrica. A Secretaria da Agricultura estima em caráter preliminar que a estiagem já tenha reduzido as safras de café em 25% e de cana e algodão em 10%. De três destinos bem diferentes, há um ponto comum entre Sikri, Ilha de Páscoa, e São Paulo: em certo momento de suas histórias, enfrentaram crises ambientais sem precedentes, das quais Sikri e a Ilha de Páscoa saíram perdedoras. Que lições podemos tirar dessa crise? Como manter São Paulo em sua trajetória de êxito e desenvolvimento? A resposta começa por qualificativos que podem parecer óbvios, mas não são nada triviais: que o sucesso seja construído em bases duráveis, ou seja, que o desenvolvimento seja sustentável. Hoje há amplo consenso sobre as condições necessárias e suficientes para que a sociedade se sustente indefinidamente. A organização de origem sueca The Natural Step** propôs essas condições em 1989 e diversos atores públicos e privados vêm buscando adequar-se a elas em todo o mundo, com diversas intensidades de resultados positivos, dependendo de seu estágio de evolução no tema. Essas condições estabelecem que uma sociedade sustentável não polui sistematicamente, não destrói sistematicamente o seu ambiente e não impede as pessoas de satisfazer suas necessidades fundamentais. Parece simples e óbvio. E de fato é. Se examinarmos situações de colapso ambiental tais como Sikri e a Ilha de Páscoa, veremos que ocorreram como resultado da violação sistemática de uma ou de várias dessas condições. E o que tem isso a ver com São Paulo? Consideremos alguns poucos exemplos de violações que a nossa sociedade ocasiona, e que tem provável relação com a dramática crise que atravessamos. Nossos corpos hídricos são sistematicamente poluídos, diminuindo a disponibilidade de água limpa. As florestas remanescentes no Brasil vem sendo degradadas de forma crescente, gerando variações da umidade trazida ao Sudeste e Sul do Brasil pelas nuvens que vêm da Amazônia. A nível local, solos menos permeáveis não absorvem água, com consequente aumento da demanda por irrigação e menos geração de chuva. O acúmulo de gases de efeito estufa de origem antrópica vem ocasionando alterações nos ventos de alta altitude que distribuem a umidade do ar, reduzindo a chuva em alguns lugares e aumentando em outros. A lista poderia seguir, pois os exemplos são abundantes. A recomendação? Primeiro, precisamos aprender a viver sem aumentar as taxas de poluição e degradação ambientais, e sem impedir que nossos semelhantes tenham o fundamental para uma vida digna. Precisamos também restaurar o que vem sendo destruído. É preciso reconhecer o imenso custo que incorreremos ao tolerar padrões insustentáveis para perceber que será mais razoável agir desde já. Precisamos preservar e restaurar as matas ciliares, precisamos de solos porosos e biodiversos, precisamos reduzir ao mínimo o uso de agrotóxicos, precisamos parar de tratar corpos d’água como depósito de lixo. É importante levarmos em conta que cada um de nós no fundo sabe no que poderia contribuir, como consumidor e como cidadão. Precisamos, enfim, envidar certos esforços que gostaríamos de não precisar encarar. Temos que reconhecer, entretanto, que se continuarmos a violar as condições que tornariam saudável o nosso ambiente, não há porque achar que a natureza será mais tolerante. Precisamos com urgência tratar das causas do problema para evitar uma tragédia social, ambiental e econômica.

Texto de Paulo Bento Maffei de Souza e Paulo Vodianitskaia em P22 Indica
* Os autores são consultores em sustentabilidade estratégica na hapiterra.com

A INSANA GLOBALIZAÇÃO DOS ALIMENTOS


 
 
Neste mundo cada vez mais conectado é comum encontrar no mercado de nosso bairro produtos frescos não só produzidos em nosso país, mas também produtos do outro extremo do mundo. Mas somos conscientes das conseqüências disso?

Para termos uma idéia do desperdício que representa a globalização no comércio de alimentos, a revista NATIONAL GEOGRAPHIC realizou um pequeno estudo analisando a procedência das frutas e hortaliças que se podem comprar nos mercados e feiras da cidade de Nova York. Foram selecionados 60 produtos frescos locais, como damascos, vários cogumelos, azeitonas, romãs, uvas, bananas, limões, berinjelas, abacaxi, kiwi, comuns na dieta de qualquer cidadão do mundo desenvolvido. E o resultado é  no mínimo surpreendente e digno de reflexão:

Quase a metade dos produtos (28) provem dos próprios EUA, os mais próximos da cidade de Nova York são os cogumelos cultivados na Pensilvânia que só viajaram pouco mais de 200 Km. Outra espécie de cogumelo do estado de Washington e as romãs e uvas californianas viajaram mais de 4.000Km até chegar ao mercado nova-iorquino . Esses produtos foram transportados principalmente em caminhões, porém, alguns deles como os limões e as laranjas da Califórnia vieram de avião. As papayas do Havaí vieram transportadas em barcos cruzando o canal de Panamá em uma viagem de mais de 8.500 km que consumiu mais de uma semana.

Quanto aos produtos estrangeiros fizeram viagens muito mais longas como os 11.800 km  dos cogumelos chineses, os 14.200 km dos Kiwis e damascos neozelandeses e os mais de 14.000 km de viagem de barco das pinhas sul-africanas. Porem o produto vencedor em relação à distância são as exóticas pitayas (não me perguntem o que são) que foram colhidas no Vietnan e transportadas de avião por 14.435 Km.

Ao final a distancia percorrida pelos 60 produtos somou o total de 360.000 Km com uma média por produto de 6.000 Km.

Tendo em conta que 21 produtos foram transportados por avião em rotas que oscilaram entre os 4.000 e os 14.435 Km é fácil compreender o imenso gasto energético que representa transportar por avião em rotas de milhares de km alimentos, simplesmente para que possam os nova-iorquinos  consumir durante todo o ano essas frutas, verduras e hortaliças.

 

O ESCANDALO DO DESPERDICIO MUNDIAL DE ALIMENTOS


 

O sistema econômico mundial, cujo objetivo principal é a produção massiva de produtos, independentemente de seu uso, leva, no caso particular dos alimentos a um terrível paradoxo, embora mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo, sem duvida se desperdiça, em média, em torno de 25 a 30% da produção mundial de alimentos.

Assim, por exemplo, na Europa se desperdiça centenas de quilos de comida por habitante ao ano, devido a inúmeros fatores: sobras de comida em residências e restaurantes, mal conservação ou mal armazenamento dos alimentos, produtos com validade vencida, etc. Ainda que em todos os paises europeus se produza este fenômeno, o recorde de ineficiência alimentícia alcança  seu máximo na Holanda com 54l Kg por habitante/ano seguida da Bélgica com 341 kg por habitante/ano, na Inglaterra 256, na Polônia 247, França e Espanha 136 Kg e por aí vai em todos os países europeus. Como não poderia deixar de ser, fora da Europa os EEUU lideram com mais de 1.000 kg/habitante/ano.

No Brasil, embora não tenha encontrado dados que dessem a quantidade média de Kg desperdiçado por habitante/ano, sabe-se com segurança que o desperdício esbarra nos 25 a 30% que é a média mundial.

Sem sombra de dúvidas o solo brasileiro é um dos maiores produtores de alimentos do mundo! Mas, infelizmente, apesar de toda essa riqueza, grande parte de todo o alimento acaba indo para o lixo. Cerca de 30% de tudo o que é produzido aqui é desperdiçado! Isso acaba contribuindo para o relatório anual da FAO, que contabilizou que um terço de todo o alimento produzido no mundo foi desperdiçado no ano de 2011.

O desperdício de alimento não acontece só quando o consumidor deixa a comida no prato. Esse problema pode começar logo na produção dos alimentos onde cerca de 10% do plantio
acaba sendo desperdiçado pelo mau manuseio ou uso de agrotóxicos na alimentação. Depois, quase metade dessa produção acaba indo para o lixo devido à má conservação de armazenamento e transporte. Quando chega para as grandes centrais de abastecimentos muita comida vai para o lixo pela má distribuição! Alias, quem já foi num fim de feira no domingo de manhã e não viu uma grande quantidade de alimentos jogados no lixo, até mesmo nas ruas? Daí, quando chega ao prato do consumidor, eles fazem questão de jogar de 10 a 20% do que deveriam consumir.

Essa quantidade de alimento desperdiçado aqui no Brasil daria para alimentar mais de 54.000.000 milhões de pessoas por dia!  Esse problema acaba sendo refletindo socialmente, financeiramente e ambientalmente, alarmando a necessidade de uma política pública para combater o desperdício de alimento.

Os alimentos mais desperdiçados no Brasil são as frutas, as hortaliças, as raízes e os tubérculos. 
 
Essa quantidade enorme jogada fora nos faz pensar que é em SP ou RJ, mas é em Manaus.
 

 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS – ESTAMOS NO LIMITE DA META DE 2 GRAUS


 
Há três semanas chegou à imprensa um rascunho do que será o próximo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) Trata-se de um documento preliminar, mas a mensagem é clara: o risco de provocar danos severos e irreversíveis ao clima é real e é urgente a necessidade de reduzir drasticamente  as emissões de gases de efeito estufa. Este alerta dos cientistas contrasta de forma brutal com a indiferença dos governos e grandes corporações que dominam o mercado global.
A versão final do documento está sendo discutida na sede da ONU em N. York hoje, 23 de setembro. Convocada por Ban Ki-moon, o encontro reuni lideres de governos e do setor privado para discutir medidas concretas orientadas para reduzir as emissões em ações de curto prazo.
O mundo carece atualmente de um quadro regulamentar sobre as alterações climáticas e o processo de negociações para alcançar compromissos políticos é um caos. A cúpula de N.York é, essencialmente, uma reunião para se conversar. A COP20 em dezembro em Lima só poderá avançar até um projeto para um novo tratado sobre mudanças climáticas. Terá que esperar até a COP21 em 2015 para ver que tipo de monstro emerge deste longo processo de compromisso e transações.
Os resultados do quinto relatório de avaliação do IPCC indicam que o aquecimento do sistema climático é um fenômeno indiscutível e algumas das mudanças observadas nas últimas seis décadas não tem precedente por milhares de anos. O aquecimento observado na atmosfera e oceanos; volume de gelo e a quantidade de neve caíram; o nível do mar subiu.
Estudos do IPCC mostram que as observações acima são correlacionados com o aumento da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. O principal GEE é o dióxido de carbono (CO2) e vem principalmente dos combustíveis fosseis e processos industriais e, em menor grau, de desmatamento e alterações no uso da terra. O inventário de GEE inclui outros gases mais potentes em sua capacidade de reter a radiação infravermelha (como o metano) e, embora seja necessário reduzir essas emissões, o principal contribuinte para a mudança climática é o CO2.
O relatório afirma que se as emissões não forem reduzidas as conseqüências serão irreversíveis. Há ainda indícios de que elas estão crescendo mais rápido, e a capacidade de absorção de uma parte desse gás que até aqui é feito pela biosfera está se reduzindo. Alguns analistas dizem que não só estamos caminhando na direção errada como estamos fazendo isso rapidamente.
Talvez a descoberta mais surpreendente do relatório esteja relacionada com as reservas de hidrocarbonetos e seu destino final. Cerca de 80% dos combustíveis fósseis. Que são conhecidos por existir em várias formas, teria de permanecer onde está para o planeta não ultrapassar o limite de um aquecimento de 2 graus Celsius (em relação à temperatura média anterior à revolução industrial) Ou seja, quatro quintos das reservas de combustíveis fósseis teria que permanecer inexplorada.
A economia mundial adotou há muitas décadas um perfil de energia que é totalmente dependente de combustíveis fósseis. Mudar o perfil associado a essa infraestrutura é um processo caro e lento. Não vai precisar apenas de fontes alternativas de energia, também é preciso mudanças na forma de de transportar e consumir essa energia. Mas
as grandes empresas do setor de energia se comprometeram com esse perfil tecnológico e não estão preparadaspara mudar isso antes de amortizar seus investimentos. As mudanças devem ser introduzidas em uma longa lista de bens de consumo duráveis. E ainda há mais. Grandes empresas do setor de energia do mundo estão gastando bilhões
De dólares na exploração e extração de combustíveis fósseis. E se por um passe de mágica a decisão de deixar 80% das reservas intactas, essas empresas teriam que aceitar o cancelamento de milhares de milhões de dólares de ativos que são o valor dessas reservas. As ramificações de uma mudança radical na estrutura financeira dessas empresas são muito grandes e envolvem uma profunda transformação do sistema financeiro.
A resistência à mudança não vem apenas de uma infraestrutura rígida de produção e consumo de bens, também vem do setor financeiro. E se alguém pensa que o cancelamento de ativos é um simples exercício de contabilidade, lembrar o domínio do capital financeiro é a principal característica do atual estágio do capitalismo mundial.
Texto do economista Alejandro Nadal, conselheiro editorial do SINPermiso