“Todo o tempo em que pensei que estava aprendendo a viver, estive aprendendo a morrer.” (Cadernos de Leonardo Da Vinci)

APRENDENDO A MORRER

Enquanto minha mulher e meus filhos dormem
e a casa descansa do burburinho familiar,
eu me levanto e animo os espaços quietos.
Faço como se eles — meus filhos, minha mulher —
­estivessem despertos, ativos
na própria lida que lhes ocupa o dia.
Vou sem sono (ou sonâmbulo) chamando, falando com eles;
mas ninguém responde, ninguém me vê.
Chego até onde está a menor de minhas filhas:
ela fala com as bonecas, não repara em minha voz.
O garoto entra, joga sua pasta escolar,
dos bolsos tira suas bugigangas:
artimanhas de um prestidigitador.
Quisera dividir com ele essa arte e esse tesouro,
quisera estar com ele. Continua distante:
não repara em meu gesto nem em minha voz.
A quem apelo? Minhas outras filhas onde estão?
Ando pela casa brincando de esconde-esconde:
Estou aqui!
Mas ninguém responde, ninguém me vê .
Minhas filhas em seus mundos seguem outro compasso.
Onde terá se metido minha mulher?
Ouço ela na cozinha; a água corre,
cheira a folhas de coentro e de louro.
Está de costas. Olho seu cabelo,
seu pescoço Jovem: ela viverá ...
Quero me aproximar dela mas não me atrevo
— cheira a guisado, a bolo saído agorinha do forno -;
E se ao virar a cabeça, ela não me vir?
Como um ator que esquece seu papel na cena,
desesperado grito:
Estou aqui!
Mas ninguém responde, ninguém me vê.
Até que chegue o dia e com sua luz
termine meu exercício de aprender a morrer.
Pablo Armando Fernández
(De: Campo de amor y de batalla, 1963-1982
Postar um comentário