PATATIVA DE ASSARÉ - CENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Patativa de Assaré

PATATIVA DE ASSARÉ

No diminuto terreno
Que recebemo de herença,
Cumecei derne pequeno
Na minha penosa infança
Sendo pobre agricurtô,
Topando frio e calo
De suo todo muiado,
Derne os pé inté o rosto
De tudo pagando imposto
Sem ninguém te me ajudado

É assim com esses versos, que Antonio Gonçalves da Silva canta a infância desventurosa no poema AUTOBIOGRAFIA.
A pobreza extrema experimentada no sertão do Cariri, no interior do Ceará, onde água é um bem rarefeito, fadava o menino, nascido em 5 de março de 1909, a um futuro pouco promissor. Mas a graça do destino está em desafiá-lo. Pois o brasileiro Antônio, nascido no sítio dos pais na Serra de Santana, fez tanto e fez mais: com sua arte inverteu a roda do destino, para dar forma nacional ao local onde nascera – a então Vila de Assaré, cujo centro distava 20 Km da gleba em que veio ao mundo.
Ao nome artístico, assumido logo no início da carreira, PATATIVA, uma pequena ave canora comuníssima na região – Antonio juntou o da cidade em que nasceu. Mais tarde foi o poeta que se tornou referência do lugarejo, de onde não saiu até morrer em 2002. Fez-se então um dos grandes artistas brasileiros: PATATIVA DE ASSARÉ.
Patativa é mais que um poeta popular, primeiro, pelo enorme poder de comunicação que sua poesia demonstra possuir entre o povo, explica Cláudio Henrique Andrade, autor de PATATIVA DE ASSARÉ – AS RAZÕES DA EMOÇÃO.
No ano em que comemoramos os cem anos de nascimento de Patativa de Assaré aqui estão alguns de seus cantos.

TERRA DOS POSSEIROS DE DEUS

Esta terra é desmedida
e devia ser comum,
Devia ser repartida
um toco pra cada um,
mode morar sossegado.

Eu já tenho imaginado
Que a baixa, o sertão e a serra,
Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça,
Que diabo é que quer com a terra?

EU QUERO

Quero um chefe brasileiro
Fiel, firme e justiceiro
Capaz de nos proteger
Que do campo até à rua
O povo todo possua
O direito de viver

Quero paz e liberdade
Sossego e fraternidade
Na nossa pátria natal
Desde a cidade ao deserto
Quero o operário liberto
Da exploração patronal

Quero ver do Sul ao Norte
O nosso caboclo forte
Trocar a casa de palha
Por confortável guarida
Quero a terra dividida
Para quem nela trabalha

Eu quero o agregado isento
Do terrível sofrimento
Do maldito cativeiro
Quero ver o meu país
Rico, ditoso e feliz
Livre do jugo estrangeiro

A bem do nosso progresso
Quero o apoio do Congresso
Sobre uma reforma agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária

Finalmente, meus senhores,
Quero ouvir entre os primores
Debaixo do céu de anil
As mais sonoras notas
Dos cantos dos patriotas
Cantando a paz do Brasil.
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