OCTAVIO PAZ - Todos os dias te descubro

Quantos bons momentos de reflexão não se tira deste poema que nos leva a inúmeros caminhos. Quem hoje pára a ouvir passar o vento?  Qual a sensação do vento tocando sua face? Quem para pra olhar uma pedra? "Não sei que pensarão os outros ao lerem isto" diz Octávio. Acho que ele deveria dizer: Será que eles irão parar e refletir sobre isto?



OCTAVIO PAZ


Todos os dias descubro


A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo existir é o suficiente.
Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei de escrever muitos mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.
Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,
Gosto porque não tem parentesco comigo.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale apena haver nascido
Só para ouvir passar o vento.
Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.
Uma vez me chamaram poeta materialista.
Eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
Nem sequer sou poeta: vejo.
Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.

OCTÁVIO PAZ nasceu na Cidade do México em 1914. Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Morreu na Cidade do México em 1998.

BERNARDO
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