HÁ TEMPO APENAS PARA SOBREVIVER

Que dizer de um mundo onde não se tem tempo para degustar um poema, e um romance então...Estamos tão envolvidos na sublime tarefa de sobreviver...muitos, outros de acumular...acumular e ostentar. Aliás muitos até poderiam se dar ao luxo de dedicar uma hora por dia à literatura, à história, à filosofia, mas como manter os caros encargos do status? O mundo material é infinitamente mais importante. Que importa se iremos deixá-lo daqui alguns anos,talvez alguns dias, algumas horas. Vivemos o paradoxo de que quanto mais tecnologia menos tempo temos para nossa alma. Afinal a alma se esconde dentro do corpo e é o corpo que todos vêem. Este deve estar sempre jovem, bonito, ornado com jóias e finas roupas. Quanto ao espírito, ora o espírito, deixemos para pensar nele na próxima vida...se tivermos tempo.
Bernardo
Carlos Drummond de Andrade


O sobrevivente
Carlos Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)

Carlos Drummond de Andrade in: Alguma Poesia, 1930
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