O FASCÍNIO DOS PÓLOS - PARTE 2: A MORTE DO PÓLO NORTE

Para a completa dissolução do Pólo Norte disparou a contagem regressiva. Vinte anos, como sugere cautelosamente o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas? Entre os 5 e os 10 anos, como asseguram autorizadas entidades de pesquisa estadunidenses?
Continuo aqui o artigo iniciado ontem, extraido da revista LE MONDE DIPLOMATIQUE de dezembro 2010 de autoria de Gilles Lapouge.

Sol da meia-noite é a designação comum para o fenômeno que ocorre nas latitudes acima de 66º 33’ 39" N ou S, ou seja, para além do círculo polar ártico ou do círculo polar antártico, quando o Sol não se põe durante pelo menos 95 horas seguidas. Em latitudes superiores a 80 graus, o Sol não se põe por mais de setenta dias sem o verão, ou seja, não há noites durante mais de dois meses.

A corrida ao tesouro foi iniciada. Para os geólogos, o espaço ártico é uma festa. Eles desembarcam em bandos e levantam todo o inventário dos recursos ocultos sob o mar ainda branco; calculam a quantidade de petróleo por bilhões de barris; a de gás por milhões de metros cúbicos; a de carvão, cobalto, antimônio, diamantes, cobre, níquel, pesca e poluição. Resta designar os proprietários dessas raridades.

O direito internacional exclui o Pólo Norte dessa batalha, visto que não tem proprietário – pertence à humanidade. Além disso, como uma nação poderia reclamá-lo para si sendo ele um lugar irreal, uma figura meramente matemática, o ponto de intersecção entre o eixo da Terra e a superfície terrestre? De forma geral, está dentro de um espaço onde as horas não existem, já que todos os meridianos e fusos horários convergem num só ponto, de modo que os relógios anunciam todas as horas de uma só vez. Eis um caso de não divisão geológica e geográfica reconfortante.
 
Encontro de todos os meridianos e fusos horários

Mas há uma segunda razão: ao término da convenção da ONU sobre o direito do mar, assinada em 1982, todos os países que margeiam o Oceano Ártico obtiveram o direito de gerir os fundos marinhos de sua costa – desde que estejam a até 360 km de distância – dentro de uma “Zona Econômica exclusiva” (ZEE). No entanto, a maioria dos recursos minerais identificados está perto da costa, dentro da faixa dos 360 km. Assim sendo, a possível exploração de tais recursos não seria causa para litígios. Infelizmente, porém, uma cláusula da convenção de 1992 vem semeando perturbações: se os países envolvidos provarem que a plataforma continental que margeia suas fronteiras se prolonga para além do limite físico de sua ZEE, sua soberania será aumentada em alguns hectares.

Tal cláusula tem agradado muito dos cinco países envolvidos. Seus geólogos rapidamente descobriram inúmeras plataformas continentais. A Rússia anunciou a Dorsal Lomonossov, cadeia submarina de 2 mil km que se estende sob o Pólo Norte e atravessa todo o espaço ártico, ligando a Sibéria à ilha canadense de Ellesmere e à Groenlândia. Segundo o Kremlin, o pólo e os espaços que o cercam pertencem à Rússia, definição a que os geólogos canadenses se opõem, afirmando que a Dorsal Lomonossov é simplesmente um prolongamento da ilha Ellesmere. Algo que os geólogos dinamarqueses rebatem com ironia, assegurando que a cadeia submarina é um prolongamento da Groenlândia, fazendo da Dinamarca sua representante até segunda ordem – ou seja, até que os inuítes, indígenas esquimós que habitam as regiões árticas do Canadá e da Groenlândia, recuperem os seus direitos.


 No momento, o Pólo Norte parece protegido, mas em 10 ou 20 anos as finanças e a indústria se jogarão com unhas e dentes em direção aos mares do Ártico. Sobre o silêncio e a brancura glacial que haviam até então escapado da curiosidade de fuinha da História, os homens irão trazer os tratores e escavadeiras mecânicas, os vazamentos de gás, os navios monumentais, as ONGs, os barulhos, as fábricas de bacalhau, as hordas de ecologistas, as plataformas petrolíferas, os “hiper-super-mega” tanques e os navios quebra-gelo nucleares. A brancura glacial irá desaparecer. Em meio aos icebergs fora de rota, a mar será lamacento. As cidades surgirão das brumas e o belo silêncio pré-histórico será substituído pelo frenesi das sirenes e martelos. Uma das últimas reservas de beleza natural morrerá.


 

Por quatro séculos, o homem tentou se esgueirar através de ilhas e geleiras, a fim de encurtar as distâncias do globo. A partir do Canadá, buscou-se a passagem noroeste que permitiria cruzar o Estreito de Bering e atingir os países do Oriente. Dezenas de equipes e capitães corajosos se perderam nesses brilhantes labirintos, vítimas de ursos ou da solidão e isolamento. Seus corpos estão no gelo. A Rússia, a partir de sua costa, buscou uma rota no sentido nordeste para atingir o mesmo Estreito de Bering, mas junto à Sibéria, a fim de guardar suas mercadorias nos portos da Ásia. O fim inevitável da banquisa ártica vai abrir naturalmente essas duas passagens. Um presente inestimável.
 

Certamente, há de se esperar algum tempo, cerca de 15 anos, segundo os especialistas, para que as passagens Nordeste e Noroeste se tornem operacionais. Mas os litígios jurídicos já começaram: o Canadá considera que sua soberania deve ser respeitada sobre o braço de mar que serpenteia por entre as ilhas canadenses. O direito marítimo tem uma visão contrária, e se prevê um sistema de pedágio. Será também mais adequado constituir frotas possantes, incluindo quebra-gelos nucleares ou navios com cascos reforçados por triplas camadas de aço, capazes de navegar por entre os detritos do degelo.
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